Henrique Vianna de Amorim: a história além da Fermentec

Henrique Vianna de Amorim chegou aos 80 anos em julho com entusiasmo para dar e vender em levar adiante a sua missão de promover a excelência no setor sucroalcooleiro. Mas nesta conversa o assunto é outro. Amorim abre a história de sua família, fala sobre seu passado de atleta e revela a que se dedicava aos quinze anos de idade (que nada tinha a ver com etanol e leveduras).

Uma loucura

A agronomia é vista como uma carreira promissora, mas quando Henrique Vianna de Amorim decidiu pela profissão a situação era diferente. Naquela época, década de 60, os universitários que não eram filhos de fazendeiros acabavam trabalhando no serviço público e o salário não era lá essas coisas. Henrique sempre teve muito interesse sobre as plantas e a biologia. Seu pai, o médico Henrique Berbert de Amorim, viu no filho um sucessor natural da sua clínica e teve uma pontinha de esperança quando Henrique prestou vestibular para medicina no Rio de Janeiro. Porém, o que cravou o destino do jovem Henrique foi o terceiro lugar no vestibular para agronomia na ESALQ, na qual ingressou em 1962. Para o pai, uma loucura, para o filho, o início de um sonho “eu amava biologia, mas ver sangue não era para mim”, afirma Amorim.

Cidade quentinha

Primogênito de cinco irmãos, Henrique Vianna de Amorim, nasceu no dia 1º de julho de 1939 em São Paulo, capital. As crises de asma de Henrique, ainda bebê, fez seu pai mudar da fria e úmida capital para uma cidade mais quentinha, Ribeirão Preto. A mãe de Amorim, chamada carinhosamente de Aldinha, era pianista, mas seu ofício sempre foi cuidar da casa e da educação dos filhos. A mudança para Ribeirão fez bem não só ao menino Henrique, que foi recuperando a saúde, mas também ao seu pai. Na época, a cidade contava com apenas dois otorrinos, o que favoreceu o pai de Amorim a se estabelecer com sua clínica e vir a ser um profissional respeitado. Seus irmãos Álvaro (falecido em 2018) e João Carlos seguiram carreira em engenharia metalúrgica. Já suas irmãs, Ana Luiza e Vera Lucia, estudaram secretariado.

Gerações de Henriques

Tudo começou com Heinrich Berbert (Heinrich é Henrique, em alemão). Ele vivia no então Império Austro-Húngaro, que incluía o território em que hoje é a Alemanha e outros países europeus. Por volta de 1850, Heinrich chega ao Brasil. Uma de suas filhas, Theodolinda, a Dudu, é a avó de Henrique Amorim;
Dudu, por ter grande admiração pelo pai, dá ao seu filho o nome de Henrique (pai do Dr. Henrique);
Henrique Berbert de Amorim Neto, atual presidente da Fermentec, herda o nome de seu pai e dá ao seu filho o nome de (suspense) Henrique.

O império em Ilhéus

No Brasil, Heinrich Berbert recebeu uma sesmaria (lote de terra cedido pelo rei de Portugal) em Ilhéus, BA. Nesta área de floresta, Heinrich plantou cacau. Por volta de 1860, Heinrich recebe uma visita ilustre, o arquiduque austríaco Maximiliano de Habsburgo, primo de Dom Pedro II, que passou três dias na fazenda dormindo na mata e caçando. Sua viagem ao Brasil culminou com o lançamento de um livro, traduzido posteriormente em português como Mato Virgem, em que revela a biodiversidade, cultura e costumes do nosso povo. As informações do livro foram base para diversos estudos científicos feitos na Europa. Mais tarde, o arquiduque viria a se tornar o imperador do México, mas foi fuzilado aos 35 anos de idade em circunstâncias misteriosas. Já a fazenda foi herdada pelos avós do Dr. Henrique. Virgílio Calasans de Amorim não só integrou mais terras à fazenda, mas também foi o primeiro da Bahia a usar fertilizante em culturas de cacau. Além disso, foi ele quem levou a telefonia a Ilhéus e ajudou na construção da estrada que liga o município a Itabuna. Amorim tem grande admiração pelo avô, um homem empreendedor e visionário. Curiosidade: a primeira pesquisa que o Dr. Henrique fez na ESALQ foi sobre cacau utilizando sementes trazidas da fazenda da Bahia, sob a orientação do professor Eurípedes Malavolta, falecido em 2008.

Pausa para o café

Antes de trabalhar com etanol e açúcar, o grande objetivo de Amorim era estudar o café. Adquirir conhecimento e melhorar a qualidade da bebida era uma obsessão. Nenhum congresso e artigo ficavam para trás. Ainda no segundo ano da faculdade de agronomia, ele descobriu uma enzima que tinha impacto na qualidade do café. Esta pesquisa correu o Brasil e chegou até a Colômbia, uma das maiores referências do mundo em café. Esta descoberta projetou o nome de Henrique Amorim, o que abriu portas para bolsas e financiamentos permitindo que seu trabalho com café prosseguisse até 1978, incluindo seu doutorado.

De carona

Foi da época que ainda trabalhava com café que Amorim guarda uma das histórias mais curiosas sobre as inúmeras viagens que já fez no Brasil e ao exterior. Lá pelo final da década de 60 e início de 70 (ele não se lembra exatamente o ano), Amorim participava de um congresso sobre café em Amsterdã, na Holanda. Ao final do dia, a organizadora do evento o convidou para uma confraternização em um restaurante pelas redondezas e, como ele estava a pé, uma carona para jantar seria muito bem-vinda. Quando deixou o prédio, a organizadora o aguardava com o seu “possante”: uma bicicleta. E foi assim que o Dr. Henrique circulou pela cidade, na garupa, naquela noite agradável da capital holandesa.

Nas alturas

Quando não estava pensando em biologia, Amorim estava com a cabeça nas alturas, literalmente. Aos 15 anos, começou a pilotar um avião monomotor e chegou a tirar o brevê, a habilitação da aviação, acumulando mais de 800 horas de voo. Também na juventude, por incentivo do amigo Chicão, praticante de decatlo (esporte que reúne dez modalidades diferentes), Dr. Henrique começa a treinar salto em altura e corrida de 100 e 200 metros rasos, que o ajudou a melhorar sua capacidade respiratória. Chegou ao podium em algumas competições e disputou jogos universitários quando era estudante da ESALQ. Questionado se chegou a se animar em praticar decatlo como o amigo Chicão, Amorim é categórico “não, nem pensar”.

Um homem simples

Amorim é um empresário reconhecido, já recebeu diversas homenagens no Brasil e no exterior, conhece personalidades, mas nada disso mudou o seu jeito de ser e ele ainda mantem os hábitos simples. Nas noites de quinta-feira gosta de ir à casa de seu vizinho, onde encontra os amigos de diversas profissões. Por isso, o conteúdo das conversas é variado e Amorim aproveita para ficar por dentro de diversos assuntos. Aos finais de semana, o programa pela manhã é passar pelo Mercado Municipal de Piracicaba para comer um pastel e jogar conversa fora com o dono da banca, do qual se tornou amigo. Para acompanhar o pastel, a bebida não poderia ser outra, o brasileiríssimo caldo de cana.

Só love

Quando era professor da ESALQ, Amorim estava decidido a não contratar mais mulheres para fazerem estágio e garante que não era machismo “às vezes tinha trabalho para fazer aos finais de semana e aí o namorado implicava porque queria passear e a estagiária estava lá trabalhando”, explica. Mas como tudo na vida tem exceção, ele resolve novamente contratar uma estagiária chamada Vera. Do namoro ao casamento, se passou apenas um ano. Além de Henrique Neto, eles também são pais de Flávia e avós de Giulia, Sophia, Alice e Henrique. Dona Vera sempre foi uma mulher muito presente na vida profissional do Dr. Henrique. O ajudou em projetos de pesquisa no laboratório e é presença certa nas Reuniões Anuais da Fermentec. Amorim se abre sobre os pedidos que recebe da família, para curtir mais a vida, viajar, mas não consegue se ver longe do conhecimento e de seu trabalho junto aos tantos colaboradores que têm na Fermentec, nas universidades e nas usinas “a Vera e meu filho Henrique me pedem para dar uma desacelerada. Eu concordo sempre, mas vou sempre adiando um pouquinho”, confessa Henrique Amorim.

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